domingo, 5 de fevereiro de 2012

Um livro que mostra as belezas do povo Maraguá

Um novo livro dos autores indigenas Yaguarê Yamã e Lia Minapoty é lançado.

Trata-se do " A arvore de carne", publicado pela editora Alaude através do Selo Tordesilhas.
Com visões amplamente indigenas seguindo as caracteristicas de contar historias tradicionais, buscamos com isso aprofundar mais os laços  entre a cultura indigena e a sociedade não-indigena.

 Esse é um livro que nos fez repensar muito de nós como lideranças indigenas e nossa atuação como autores.
Um livro que mostra a cultura indigena e seu vinculo com a terra e com a esencia da natureza. Acredito que de todos meus livros, esse é o que completa ou une o que há de mais especial da inspiração indigena com a literatura. 

Agradecemos a todos os que nos apoiam e atuam para fazer da literatura indigena mais divulgada e valorisada. Um agradecimento em especial a nossos amigos Leda Cintra, Joacyr Pereira Furtado, Daniel Munduruku, Daniel Gulassa, Cristino Wapixana, Denise Cantuaria, Renata Borges, Edina Martins, Ione Melonne Nasar, Suzi Sertã, Ciciliane Alves, Luis Helmister, Rene Kintawlu, Tino Freitas, Ana Paula, Andrea Monteiro, Joyce Belyt, Olivio Jekupé, Elias Yaguakãg, Uziel Guayne, Lucia Mynssen, Rafael Crespo e Mariza Foá.
A arvore de carne
Editora Alaude (Tordesilhas)

Autores: Lia Minapoty e Yaguarê Yamã
ano: 2012

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A LENDA DO KAWÉRA


                        Kãwéra que em língua maraguá significa “esqueleto velho” é uma entidade da mitologia Maraguá. Ser horripilante, dá arrepios nos ouvintes das tradicionais narrativas noturnas, hora em que a aldeia, quieta, ouve com atenção as antigas historias de “visaje” contadas por dezenas de “morõgetánhe~gaçara” (contadores de historias maraguá)- mestres das narrativas e especialistas em deixar os ouvintes de cabelo em pé.
                        Temíveis homens-morcegos, os Kãweras são sedentos de sangue e famintos de carne-humana. Raça de seres malignos e perseguidores dos maraguás, por isso mesmo, seu maior inimigo no campo místico e religioso.            
                       Implacáveis caçadores de gente, os Kãweras receberam originalmente o nome de Zorak, o que em língua maraguá quer dizer: “filhos do demônio”. Esses foram os primeiros morceganjos.
                     Menos humanos que os atuais, os Zorak eram criaturas lúgubres, metade gente metade morcego e habitavam as escuras cavernas da ilha que fica em meio ao lago sagrado Waruã, um lago encantado de águas escuras, que nunca está dois dias num mesmo lugar, pois desaparece sempre após os por-de-sois e que existe desde o inicio da criação do mundo quando Gwaziry, filho de Monãg, criando os rios, deixou escorrer parte da água que corre nas profundezas do submundo Pa’ãguáp, morada de Anhãga, o deus do mal e inimigo de seu pai, o senhor do universo segundo a religião Urutuópiãg dos maraguás.
                   Foi na época em que o semi-deus Gwaziry ainda  habitava entre os humanos que eles foram  criados. Anhãga foi quem os fez a partir do sangue de seu dedo empuquecado com a erva sagrada anhãga’pyra’ãga. Dessa mistura nasceram os Zorak.
              Os Zorak enxergavam pouco. Talvez seja por isso que segundo a lenda não puderam impedir sua extinção frente a esperteza dos heróis Ebenzekê, Parket e Ezayerê únicos humanos que ousaram enfrentá-los.
               Eles efetuaram uma matança geral e puseram fim em sua moradia no lago sagrado, porem não impediram a fuga de Ezamume, seu líder máximo, que fugindo, voou até a cabeceira do rio Kãwera e lá criou uma nova colônia.
              Ezamume, desde que foi derrotado pelos maraguás e precisou fugir pelo teto, enquanto os quatro heróis abatiam seus iguais com fortes tacapes e ateando fogo na caverna, procura se vingar, atacando os índios que se encontram distante das aldeias ou próximo ao seu atual refúgio – uma gigantesca arvore localizada na cabeceira do rio Kãwéra, afluente do rio Abacaxis.
             Ele perdeu a batalha, mas não a guerra. Voando em direção a cabeceira do rio Kãwera, no caminho pousou sobre uma aldeia onde agarrou com suas enormes garras uma mulher índia chamada Potãga e a seqüestrou. Com essa mulher ele teve relações e passado dois anos, já não era somente Ezamume, mas uma porção de filhotes de morcego-gente, todos parecidos com ele e com   sua mulher, dando origem a uma forma mais humana dos Zorak, pois alem de terem o poder do pai, tinham o DNA da mãe. Dessa maneira aparecerem os Kãwéras.      
              Os Zorak atuais continuam vivendo como Ezamume, dentro de uma gigantesca arvore, servindo-se de buracos fétidos para entrar e sair, momento em que vão caçar gente para seus banquetes. Sua aparência não é muito agradável: Mistura de morcego e gente, tem a cabeça de cachorro e os braços grudados a grandes asas pretas das quais se prolongam enormes garras. Seus olhos chispam fogo e sua língua tem formato de língua de serpente, assim como sua calda. Dizem também que são poucos, mas que em tempos antigos eram muitos, e suas colônias dominavam todo o percurso do rio Abacaxis.
               Quanto a Ezamume, mesmo depois de muito tempo, ainda vive. Dizem que gostou tanto de ter relações com humana que desde que seqüestrou Potãga, já fez filho em dezenas de mulheres índias e algumas brancas, dando origem a Kãweras brancos, também chamados de Albinos, esses, dizem, são os mais malvados, e preferem atacar povoações não-indias, de pessoas recém chegadas a floresta.
             Hoje Ezamume já está velho, pouco sai do buraco da grande arvore, prefere esperar que seus filhos tragam carne fresca em seu paradeiro.
                Certa vez, um grupo de caçadores Maraguás tentando chegar a cabeceira do rio Kãwera depararam-se com uma enorme arvore. Então se lembraram da lenda contada de geração em geração, desde os mais antigos malylis (como são chamados os pajés na língua maraguá) e constataram sua veracidade.
              Tentaram continuar viagem, mas quanto mais se aproximavam da arvore, mais sentiam um forte cheiro de urina de morcego. O fedor era tanto que suas cabeças começaram a doer de uma tal forma que mal podiam caminhar. Alguns deles chegaram a cair no chão atordoados, mas foi só.
              Sem ter como continuar, deram meia volta e ainda viram um enorme buraco em cima do grosso tronco daquela arvore assustadora.
               Contaram o acontecido ao malyli da aldeia e ele confirmou: - É lá a morada de Ezamume e dos seus filhos.
            Nunca mais houve outra expedição para aquelas bandas, mesmo porque convictos de sua existência, os maraguás não ousam chegar próximo de Ezamume. Seu nome realmente mete muito medo. Nas historias tradicionais contadas aos por de sois, seu nome é respeitado e muito temido. Muita gente prefere ouvir historias de qualquer “bicho” a ter que ouvir historia de Kãwera e conseqüentemente sonhar com Ezamume – o medo mais profundo de qualquer um. 


             

sábado, 19 de novembro de 2011

Conto Maraguá

A menina e a arara

              A menina ganhou uma arara. Era bela, de cor vermelho-escuro. A ela deu o nome de Linda.
               Linda era selvagem. Ela havia sido capturada , quando sem poder, debaixo de uma bruta chuva, via seus dias chegando ao fim quando dois rapazes que passavam por perto a viram assustada em cima de uma arvore seca. Voltaram, e deram-na de presente a menina. Ela, porém nunca se deixou domesticar.
                A menina passava horas tentando fazer amizade com Linda. Dava-lhe comida, conversava com ela e procurar dar carinho, mas a arara não aceitava.
               - Talvez se ela tivesse nascido em casa. – Dizia o pai. – Quem sabe fosse diferente.
               Mas a pequena não perdia a esperança.
               Numa manhã, enquanto fazia sua primeira refeição do dia, a menina ouviu gritos de muitas araras sobrevoando a casa. Correu para ver e se deparou com uma dezena de araras pousadas próximo ao poleiro de Linda.
               Foi a primeira vez que a menina via a arara feliz. Ela gritava e se debatia tentando escapar da linha que a prendia ao poleiro. Mesmo assim era como se estivesse entre as demais.
               Elas ficaram ali e depois voaram para bem longe. A arara voltou a ficar triste.
Pensativo a menina soltou a arara para ficar livre das amarras.
               -Mas se ela fugir? – Disseram.
               A menina não tinha escolha. Queria ver a arara feliz.
               No outro dia, apareceram novamente as mesmas araras. Sua arara, alegre voou e foi estar com as outras na copa da arvore.
               No por do sol, elas voaram e foram embora, mas a arara da menina ficou. Voltou para o poleiro. Foi a primeira vez que a menina pode dar comida em seu bico e fazer cafuné em sua cabeça.
              A menina entendeu então a importância da liberdade. Contente ele foi dormir. Só não imaginava que aquela seria a ultima noite em que a arara estaria com ela.
              Na terceira vez em que suas irmãs araras foram lhe visitar, chegando o por do sol, quando elas foram embora, a arara foi junto. A menina olhando, se pos a chorar.
               Dias passaram, até que numa vez, sem esperar as araras voltaram. A menina correu para ver e reconheceu sua amiga arara em meio às outras. A arara voou até o poleiro e como estivesse se despedindo deixou a menina afagar-lhe mais uma vez sua cabeça. Depois retornou a copa da arvore. Quando a noite chegou, voou junto com as outras. Dessa vez se foi embora para nunca mais voltar.



quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O POVO DAS HISTORIAS DE ASSOMBRAÇÃO



                 Conhecidos por suas historias de fantasmas, os Maraguás tem em sua mitologia uma rica e variada cultura de seres e visajes. Desde criança, quando passam a ouvir as historias tradicionais, os maraguás se dedicam a contação de historias.                                
                Aprimorar a arte valorizando o suspense passado nos melhores horários é sempre o desejo dos contadores de historias. Historias de fantasma é o bom nos momentos de descontração, principalmente aos por de sol.
             Quando chega a noite e a escuridão toma conta da aldeia, os adultos vão se achegando a mirixawaruka – casa de conselho, e aos poucos é iniciada a sessão de historias que pode durar horas – boa parte da noite. As crianças também têm seus momentos de contação de historias, que são as fabulas e contadas geralmente pelos malylis ou outros contadores de historias. Mesmo assim, preferem a sessão dos adultos, onde as visajes ganham temas especiais.
               Na mitologia, as entidades têm grande importância para a natureza. As visajes também, mas algumas são malignas por demais deixando a proteção do meio ambiente em segundo plano. As visajes e seres fantásticos da natureza são muitos e todas habitam a crença dos moradores do rio Abacaxis.
             Sendo base da antiga religião, as entidades se dividem em classes segundo a ordem dos seres e de seus poderes. Alem dos deuses Anhãga e Monãg, do semi-deus Wasiry e dos espíritos protetores Tapirayawara, Çukuywéra, Ka’apora’rãga, Pirá’ákãg, Yanawy e Kaçawawaçú’rãga, (que fazem parte das histórias de origem e são tidos como sagrados) existem as entidades que dão medo:
             Waurãga  – Que em língua sateré recebe o nome de “ga’apy’sy” são as mães-da-mata que protegem seu espaço e o lugar onde habitam. 
             Wãkãkã ou Myra’ãga – são as visajes (assombrações e fantasmas) propriamente ditas. Procuram só fazer o mal. Os que pertencem a essa classe são: Kunhãgwera, Pó-kwára, Pi~to-piroka, Ipuré, etc.
            Seres – são entidades cujos corpos mais se aproximam do ser humano. Eles são muitos, os principais são: Guayára, o Mapinguary, os Jumas e os Kurupyras. 
           Encantados - São seres que não foram criados por nenhum deus ou semi-deus. Segundo a religião Urutopiãg, já existiam antes de haver mundo. São eles: A Pirayba, a Jiboia, a Boiaçú e os Wiára – ou botos-gente (também chamados de companheiros do fundo) que habitam as cidades encantadas do fundo dos rios amazônicos.
         Waurá-kãkãnema – são os amimais propensos a manifestação das visajes denominadas Waurá-anhãga (visajes que precisam de corpos para se manifestar), das waurãga ou de pessoas que por pacto com o espírito mal, são capazes de se transformarem em visajes e assim “malinar” dos caçadores, dos pescadores ou qualquer pessoa que tenha despertado sua raiva.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

PALAVRAS ALADAS, MISTICISMO NO MEU POVO MARAGUÁ


               As palavras que voam e dão formas a seres emplumados gigantescos estão no intimo da cultura do povo indígena Maraguá. Um povo indígena que habita o território Maraguapajy, o país dos maraguá, localizado no rio Abacaxis, Amazonas e falantes de um dialeto que mescla aruak e nhengatu.
        As palavras ali voam e nesse sentido criam formas conforme vão saindo da boca do morõgetánhe~gaçara, o tradicional contador de historias de assombração, na essencial sessão de historias contadas ao pé da fogueira e dentro da mirixawaruka, a casa do conselho, onde anciãos deitados nas redes são rodeados por mulheres e crianças atentas as narrativa em que se revezam. Tudo isso no nobre horário das seis horas da tarde. Sessão que pode demorar horas, conforme a quantidade de historias.
             Historias de assombração é marca na cultura dos maraguá, índios que tem o apelido regional de “o povo das historias de assombração” E o que faz justiça ao nome são as muitas historias de seres alados devoradores de alma de gente, como o famigerado kãwéra - inimigo mortal dos maraguá em sua religião tradicional.
       Assim são os Maraguás e suas historias. A vida e o cotidiano nas aldeias são repletos de magia trazidas pelas contações das historias aladas.



 yaguarê yamã
escritor, professor, ilusrador e geografo